CANTILENA (1993)
Cantava-se
o amor
em
loas, luas,
luais,
ais de
melancolia.
Era
um amor
que
doía.
Vivia-se
o amor
em
camas, fulana
versus
fulano,
com
flores e fantasia.
Era
um amor
que
urgia.
Queria-se
o amor
pensado,
pinçado dos
coult-movies,
cheio
de aerofagia.
Era
um amor
sinergia.
Vivia-se
o amor
mimético,
hermético,
redoma
de diamantes,
que
não polia.
Era
um amor
de
fobia.
Onde
o amor,
simplesmente,
sem
nenhuma alegoria,
sem
mais nem menos valia?
TALVEZ (1999)
Eu
poderia , talvez, estender meus braços sobre a mesa
E
te colher do fundo da noite que, como nós,
Se
esgueira, ainda, das manhãs.
Eu
poderia, talvez tocar cada palavra
Com
o silêncio que, como nós,
Se
faz trincheira a cada insônia renitente e vã.
Eu
poderia te convidar para saltar
Sobre
o dourado das lâmpadas ao chão
E
te roubar à amarelinha de estrelas, uísque,
Gelo,
sob o céu de neon.
Eu
poderia recolher as luas mortas
Do
teu olhar e te ofertar cheios luares
Sobre
longos, longos mares.
Mas
ficamos, corretas como as palavras,
Gelo
e amor se derretendo na toalha.
Discretas,
com a noite sendo apenas
Um
flash se esgueirando do porão.
HÁ TEMPO AINDA (1972)
Há
tempo ainda
para
abrir os olhos na sala de estar
e
escutar o silêncio dos passos
que
não vêm ao meu encontro, enquanto
eu,
ainda assim, espero.
Há
tempo ainda
para
plantar aquela flor que colhi
dos
teus cabelos e vê-la crescer,
noite
a noite sob o cobertor vazio.
Faz
frio nesse verão latino
onde
algum céu vê tua pele morena
e
aguça minha palidez.
Há
tempo ainda
para
ligar o som da sala
e
ouvindo a nossa música
te
convidar pra dançar.
E
rodar, rodar, rodar,
rondando
o momento que espreita
os
quatro cantos da sala, tilintando
nos
cristais e esparramando no espelho
a
impossível valsa de dois pés.
Há
tempo ainda
para
o uísque escocês (escondido no porão)
que
guardei só pra você e sorver,
gole
a gole, a remoída e doída
vida-velha
das coisas.
Há
tempo ainda
de
caminhar até o banheiro e sentar
frente
a frente com a foto que tiramos
naquela
tarde de outono e rir
no
seu sorriso dessa graça
que
não tenho.
Há
tempo ainda
de
fechar os olhos e se deixar ficar
sem
escutar o barulho dos passos
que
vêm de algum ponto
enquanto
eu, pra sempre assim, espero.
Mas
já não há mais tempo.
MOMICES (1972)
Foi
num rosto qualquer,
gosto
e desgosto,
que
a vida enjoou-se da corrida
e
sentou-se, de boba, a ver estrelas.
Foi
nuns laços comuns,
laços
de aço,
que
a vida cansou da galeria
e
expôs, de tão tola, a tela à praça.
Foi
nuns gestos banais,
restos
do rosto,
que
a vida morreu na gargalhada
e
explodiu em idiotismo e fantasia.
DESPUDOR (1993)
No
soco seco
dos
teus olhos,
pasmo.
Sonhei
sozinha,
a
esmo.
E
mesmo sem respaldo
ardo
e
cismo-te
em
segredo.
Em
teu silêncio farto-me,
sufoco
o
louco despudor
de
pouco
pejo.
E
nua, em tal silêncio,
me
retardo,
a
espera
do
teu gozo
em
meu desejo.