ARQUÉTIPO DAS MIL FACES (1973)

    Após as viagens inúteis pelas galáxias,
    sentou-se ao meu lado um anjo-doido
    e disse: - "Sou o arquétipo das tuas mil faces
    e guardo comigo, há muito, a chave oculta
    da tua catarse.

    Em ti está, há muito, fecundado
    o sêmen da minha liberdade.

    Agora tu irás
    e encostarás a face em mil faces desconexas
    mas só em mim cabem os teus ângulos infinitos.

    Escritos somos na porta do inferno
    e em nós está a chave do céu."

    No fim e no iníco de cada um dos tempos,
    os anjos e os demônios cantarão, uníssonos,
    um hino aos arquétipos de todas as galáxias.

     

    CADAFALSO (1993)

    Por que há de ser tão grande
    esse castelo
    onde eu, desarmada,
    me proponho a tomá-lo
    e transformá-lo num jardim?

    Por que sempre
    atrás da porta o inimigo
    sorrateiro, de súbito, me espreita
    e transforma em espada
    o meu clarim?

    Por que os fantasmas que habitam
    o cadafalso
    pelas frestas se enfurnam
    e, como fogo, brincam
    de acender o estopim?

    Por que o sangue jorrando,
    amiúde,
    se tudo que se quer é o ataúde
    onde cantam os querubins?

     

    FULANA (1977)

    Nesta sala,
    de um número qualquer
    de apartamento,
    na rua tal,
    escondo-me,
    fulana que sou.

    Os quadros decoram
    e descoram a parede
    sem cheiro de café.

    O silêncio é o mesmo
    da noite passada.

    Não há vestígios
    de jantar pela cozinha
    nem discussões de vizinhos
    no fundo do corredor.

    A campanhia da porta
    é um estúpido acervo
    de velhas memórias.
    Estanques histórias.

    No escuro do quarto
    desmaio, lentamente.
    É o sono.
    O único abandono
    ou o possível despertar.

     

    CADÊ? ( 1993)

    Que mulher será essa
    em minha sombra?
    Que formas, que gestos
    se escondem em seus contornos?
    Que alegorias são possíveis,
    quantas faces
    sob os movimentos,
    sob todo o adorno?

    Que voz será essa
    que não reconheço
    mas que sai de mim,
    fazendo perguntas,
    cobrando o meu preço,
    chamando de Pierrot
    o meu Arlequim?

    Que criança será essa
    que gero
    sem ter sequer concebido?
    Que dor
    neste estranho parto
    de quem há muito é nascido...

    Que silêncio será esse
    para quem é toda ouvidos?

     

    TULIPA DE ABRIL (1993)

    Não é uma tulipa
    que surgiu do nada,
    assim, dissimulada.

    Nasceu de muitos anos
    sobrevivendo a primaveras
    e a geadas.

    Não é uma tulipa
    negra nem lilás
    mas rara como uma
    Edelweiss.

    Não é só uma tulipa
    de fato.
    É o pacto.
    O impacto .
    Sutil.
    Tenaz.